A Venezuela transferiu entre 113 e 127 toneladas de ouro para a Suíça ao longo de cinco anos, segundo dados de comércio exterior divulgados por autoridades suíças e relatórios da Reuters e da Euronews. As remessas ocorreram entre 2012 e 2016, nos primeiros anos do governo Nicolás Maduro, e representaram uma tentativa de obter liquidez internacional diante da pior crise econômica da história recente do país sul-americano.
De acordo com registros do Departamento Federal de Alfândegas da Suíça, o volume total de ouro venezuelano enviado ao país europeu foi equivalente a cerca de US$ 5,2 bilhões (aproximadamente R$ 28 bilhões à época). As barras eram transportadas diretamente do Banco Central da Venezuela (BCV) para refinarias e cofres de instituições financeiras suíças, onde eram purificadas, certificadas e revendidas no mercado internacional.
“Essas operações foram a principal fonte de liquidez da Venezuela entre 2013 e 2016. O ouro era convertido em divisas que sustentavam importações básicas, como combustíveis e alimentos”, explicou o economista venezuelano Luis Oliveros, da Universidade Central da Venezuela.
As transações, embora legais à época, passaram a ser questionadas a partir de 2017, quando os Estados Unidos e a União Europeia impuseram sanções ao governo Maduro e bloquearam novas exportações de ouro venezuelano. Desde então, o país tem enfrentado restrições para acessar suas reservas internacionais e acusação de venda irregular de ouro via intermediários na África e no Oriente Médio.
Documentos obtidos pela Reuters indicam que parte do metal foi utilizada como garantia em empréstimos com bancos estrangeiros, prática comum em períodos de crise cambial, mas que deixou o Banco Central da Venezuela com reservas reduzidas a menos de 80 toneladas em 2024, contra mais de 360 toneladas em 2013.
“O envio do ouro para a Suíça foi, na prática, uma operação de sobrevivência econômica. Maduro buscava monetizar ativos enquanto o país mergulhava em recessão, inflação e escassez”, acrescentou Oliveros.
Segundo analistas, o destino suíço foi escolhido por concentrar refinarias de padrão internacional e mercados de alta liquidez. Cerca de 70% do ouro comercializado globalmente passa por refinarias suíças, localizadas principalmente nas cidades de Zurique, Ticino e Neuchâtel.
A Euronews destacou que o fluxo venezuelano de ouro para a Suíça cessou em 2017, quando os bancos e refinarias suíças passaram a recusar lotes de origem venezuelana por receio de violar sanções internacionais.
Hoje, parte das reservas remanescentes de ouro da Venezuela permanece retida em bancos estrangeiros, incluindo cerca de 31 toneladas depositadas no Banco da Inglaterra, objeto de disputa judicial entre o governo de Maduro e representantes da oposição reconhecidos internacionalmente.
Enquanto o governo venezuelano evita comentar o assunto, entidades internacionais apontam que o esvaziamento das reservas de ouro foi um dos fatores que agravaram a vulnerabilidade financeira do país, reduzindo sua capacidade de importação e pressionando ainda mais a população durante a década de crise.
“O ouro foi a tábua de salvação do regime no auge da crise. Mas o preço dessa sobrevivência foi a perda quase total das reservas estratégicas do país”, resume a analista política María Alejandra Trujillo, da Universidade de Los Andes.