A captura de Cilia Flores, esposa do presidente venezuelano Nicolás Maduro, durante a operação militar conduzida pelos Estados Unidos neste sábado (3), marcou um dos momentos mais simbólicos da queda do regime chavista. Mais do que a primeira-dama da Venezuela, Cilia é considerada uma das figuras mais influentes e estratégicas do chavismo, com trajetória política que se confunde com a própria história do movimento iniciado por Hugo Chávez.
Advogada de Chávez e articuladora política
Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, Cilia Flores ganhou projeção nos anos 1990, quando integrou a equipe jurídica que defendeu Hugo Chávez após a tentativa de golpe de 1992. Sua atuação firme e leal ao futuro presidente lhe garantiu prestígio dentro do grupo bolivariano e abriu caminho para uma carreira meteórica dentro da estrutura política chavista.
Durante o governo Chávez, ela ocupou cargos de destaque, chegando a ser presidente da Assembleia Nacional entre 2006 e 2011 — a primeira mulher a ocupar o posto. Flores também foi procuradora-geral da República e, posteriormente, deputada. Foi nesse período que consolidou sua reputação de operadora política habilidosa, conhecida por sua influência nas nomeações do Judiciário e em negociações internas do partido governista, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela).
Parceira de poder de Maduro
Cilia e Nicolás Maduro se casaram oficialmente em 2013, logo após a morte de Chávez e a ascensão de Maduro à presidência. Desde então, ela passou a ser vista como a principal conselheira e braço direito do presidente, participando de decisões-chave e articulações dentro do governo. Internamente, era chamada por aliados de “La Jefa” — um título que refletia sua autoridade e sua capacidade de manter o núcleo chavista unido durante os anos de crise econômica e isolamento internacional.
Além do papel político, Flores também é figura central em controvérsias ligadas a acusações de nepotismo e corrupção. Vários de seus parentes — apelidados pela imprensa de “Los Flores Boys” — ocuparam cargos no governo e alguns foram condenados nos Estados Unidos por tráfico de drogas, após operação da DEA em 2015. Ela sempre negou envolvimento em qualquer irregularidade.
Símbolo de poder e lealdade
Para analistas, a prisão de Cilia Flores tem um peso simbólico maior que o de Maduro. Ela é vista como o elo que garantia coesão entre o chavismo político e o aparato jurídico e partidário da Venezuela.
“Flores era o cérebro do regime, a guardiã das alianças e dos segredos que mantiveram Maduro no poder”, afirma a cientista política María Teresa Romero, da Universidade Central da Venezuela.
Sua influência se estendia também à diplomacia. Foi Flores quem coordenou parte das negociações fracassadas com a oposição e com representantes internacionais em 2019 e 2021, em tentativas de diálogo mediadas pela Noruega.
De primeira-dama a ré nos EUA
Agora, Cilia Flores será julgada junto ao marido nos Estados Unidos, acusada de narcotráfico, lavagem de dinheiro e associação com grupos armados internacionais. Segundo a procuradora-geral americana Pamela Bondi, ela “exerceu papel ativo em redes de corrupção e tráfico que sustentavam financeiramente o regime chavista”.
Sua prisão encerra uma trajetória marcada por poder, lealdade e influência sem precedentes para uma mulher na política venezuelana. Para muitos, ela representava a face mais fria e calculista do chavismo — e sua captura simboliza não apenas o colapso de um governo, mas o fim de uma era política que moldou duas décadas de história latino-americana.