TEERÃ — As manifestações contra o governo do Irã atingiram proporções inéditas desde a chamada “Primavera Iraniana” de 2019, com pelo menos 65 mortos e 2.300 pessoas presas, segundo dados de organizações de direitos humanos e agências internacionais de monitoramento. Os protestos, que começaram há cerca de uma semana, se espalharam por mais de 40 cidades, incluindo a capital, Teerã, Isfahan, Shiraz e Mashhad, e foram reprimidos com violência pelas forças de segurança.
Os atos tiveram início após o aumento abrupto nos preços de alimentos e combustíveis, mas rapidamente ganharam tom político, com gritos de “morte ao ditador” e pedidos de mudança de regime. Grupos da sociedade civil apontam que a repressão atual é a mais severa desde as manifestações de 2019, quando mais de 300 pessoas foram mortas em confrontos.
De acordo com a organização Iran Human Rights (IHR), com sede em Oslo, ao menos 65 manifestantes foram mortos por disparos de armas de fogo, e o número pode ser maior, já que o governo bloqueou parcialmente a internet e restringiu a comunicação em várias províncias.
“Estamos recebendo relatos de execuções sumárias, torturas e detenções arbitrárias em massa. O mundo precisa agir para deter essa escalada de violência”, afirmou Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da IHR, em comunicado oficial.
A Força de Segurança da República Islâmica (IRGC) confirmou que centenas de pessoas foram detidas, incluindo ativistas, jornalistas e estudantes universitários. O Ministério do Interior iraniano classificou os manifestantes como “agentes de potências estrangeiras” e prometeu “resposta implacável” aos protestos.
Segundo agências internacionais como Reuters e Al Jazeera, vídeos compartilhados nas redes sociais mostram militares atirando contra multidões, viaturas incendiadas e prisões sendo usadas como centros de detenção improvisados.
Os protestos também refletem o desgaste político e econômico do regime, agravado pelas sanções internacionais, inflação acima de 40% e crise energética. Jovens e mulheres lideram as mobilizações, exigindo liberdade política, igualdade de gênero e o fim do controle religioso sobre o Estado.
“O governo está perdendo o controle sobre uma geração que não aceita mais viver sob repressão e censura”, afirmou Tara Sepehri Far, pesquisadora da Human Rights Watch.
Em resposta, o governo iraniano anunciou toque de recolher parcial em cinco províncias e o bloqueio temporário de redes sociais como Instagram e WhatsApp, usadas para coordenar os protestos.
A União Europeia e os Estados Unidos condenaram a repressão e pediram que o Irã respeite os direitos civis e liberte os detidos arbitrariamente. O secretário de Estado americano, Antony Blinken, declarou que “o mundo está observando a brutalidade do regime iraniano contra seu próprio povo”.
Com os protestos entrando no oitavo dia consecutivo, analistas alertam que o país vive um dos momentos mais delicados desde a Revolução Islâmica de 1979. O regime do aiatolá Ali Khamenei, segundo especialistas, enfrenta pressões simultâneas econômicas, sociais e políticas, que podem redefinir o futuro do Irã no cenário internacional.