Desde que Luiz Inácio Lula da Silva (PT) retornou à Presidência em 2023, o Grupo Globo recebeu cerca de R$ 462 milhões em anúncios pagos pelo governo federal na TV, representando quase metade (49,4%) de todo o gasto publicitário estatal no meio televisivo no período. Os dados, compilados a partir das informações da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) e levantados por portais como Poder360 e Notícias da TV, mostram uma concentração incomum de verba publicitária em uma única emissora.
Esse volume supera, de forma expressiva, os valores pagos à Globo durante os primeiros anos do governo de Jair Bolsonaro (2019–2022). Segundo reportagem da VEJA, entre 2019 e 2022 a emissora acumulou cerca de R$ 177 milhões em publicidade federal, valor que, mesmo distribuído ao longo de quatro anos, foi menor do que a soma registrada entre 2023 e 2024 sob Lula (também R$ 177,2 milhões até outubro de 2024).
Durante a gestão de Bolsonaro, a Globo não estava no topo da lista de maiores beneficiárias: em 2019 a emissora recebeu perto de R$ 47,2 milhões em publicidade governamental pelo gabinete presidencial, atrás da Record TV (R$ 58,8 milhões) e do SBT (R$ 53,5 milhões), com o total reunido entre 2019 e 2021 somando dezenas de milhões bem abaixo dos níveis recentes.
No primeiro ano de Lula no governo, a verba destinou-se fortemente à Globo: em 2023 foram R$ 142 milhões, um aumento de cerca de 60% em relação a 2022 (último ano de Bolsonaro), quando a emissora recebeu R$ 89 milhões, segundo apuração do Poder360.
Especialistas em comunicação observam que a alta concentração de recursos publicitários em uma única emissora levanta questionamentos sobre critérios de distribuição da verba e transparência, sobretudo em um contexto pré-eleitoral, em que a publicidade oficial tende a ser mais intensa.
A Secom, por sua vez, afirma que usa “critérios técnicos” baseados em audiência e alcance de público para definir onde investir, e que a priorização da TV reflete padrões de consumo de mídia da população brasileira.
Críticos argumentam que os números mostram um forte favorecimento da Globo em detrimento de outras emissoras, uma vez que, sob Bolsonaro, a distribuição era mais fragmentada entre diferentes canais de TV, com Record e SBT liderando parte do período antes de Lula assumir em 2023.
A comparação com gestões anteriores evidencia que, além de valores absolutos mais altos, a participação da Globo no total da publicidade estatal cresceu consideravelmente, abrindo espaço para debates sobre equilíbrio, pluralidade e os efeitos políticos da distribuição de recursos públicos para comunicação.