Juros altos, inflação persistente, apostas online e até medicamentos para emagrecimento mudam o comportamento de consumo e redesenham o setor que movimenta mais de R$ 1,4 trilhão por ano
O varejo alimentar é um dos termômetros mais sensíveis da economia brasileira. É nos corredores de supermercados, atacarejos e mercearias que inflação, renda e confiança do consumidor se transformam em decisões concretas: trocar marcas, reduzir itens do carrinho ou simplesmente adiar compras. E embora o setor continue movimentando cifras bilionárias, o cenário atual revela uma transformação profunda nos hábitos de consumo das famílias.
Em 2025, o varejo alimentar brasileiro faturou cerca de R$ 1,4 trilhão, crescimento nominal de 6,7% em relação ao ano anterior, segundo levantamento da Scanntech. No entanto, quando os números são ajustados pela inflação, a expansão real foi muito mais modesta — cerca de 2,3% — refletindo um mercado que cresce mais em valor do que em volume.
Essa diferença mostra que parte importante do aumento de faturamento vem do encarecimento dos produtos, e não necessariamente de um consumo maior. Na prática, o consumidor brasileiro tem comprado menos itens, mas pagando mais por eles.
Esse comportamento aparece com clareza em estudos recentes do setor. Um levantamento indica que o faturamento do varejo alimentar subiu cerca de 4,1% em 2025, mas o volume de produtos vendidos caiu 2,1%. Ou seja, o crescimento ocorreu principalmente porque o preço médio das mercadorias aumentou cerca de 6,3%.
O fenômeno tem explicações macroeconômicas claras. A inflação de alimentos continua pressionando o orçamento das famílias, com aumentos expressivos em itens essenciais como carne bovina e leite. Ao mesmo tempo, o crédito mais caro e o endividamento elevado limitam o poder de compra da população, especialmente entre as classes média e baixa.
Nesse ambiente, o consumidor passou a se tornar mais seletivo. Muitos brasileiros passaram a reduzir a compra de itens considerados supérfluos — como sobremesas, snacks e bebidas alcoólicas — e a substituir marcas premium por versões mais baratas ou marcas próprias dos supermercados.
Mas o desafio do varejo alimentar não se resume à inflação ou aos juros. Novos comportamentos de consumo estão redesenhando o mercado.
Um dos fenômenos mais discutidos nos últimos anos é o crescimento das apostas esportivas online, conhecidas como “bets”. Segundo pesquisa da Kantar, cerca de 13% do valor que antes era destinado à compra de alimentos e bebidas passou a ser direcionado para apostas, especialmente entre consumidores das classes C, D e E.
Essa mudança de hábito retira recursos diretamente do orçamento doméstico destinado ao supermercado. Especialistas afirmam que o dinheiro gasto em apostas deixa de circular em categorias importantes do varejo alimentar, reduzindo as vendas e pressionando as margens do setor.
Outro fenômeno inesperado também tem impactado o consumo: o avanço das canetas emagrecedoras, medicamentos utilizados para controle de peso. Embora ainda restrito a uma parcela da população de renda mais alta, o uso crescente desses produtos tem alterado padrões alimentares, levando muitos consumidores a reduzir a ingestão de determinados alimentos e produtos industrializados.
Essas transformações mostram que o comportamento do consumidor está cada vez mais fragmentado e influenciado por fatores externos ao setor de alimentos.
Mesmo em um ano com eventos que tradicionalmente impulsionam o consumo — como a Copa do Mundo — e medidas econômicas como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, especialistas acreditam que o crescimento do varejo alimentar em 2026 deve ser moderado.
Além disso, mudanças estruturais no mercado também desafiam os supermercados. O crescimento de formatos como atacarejos, que oferecem preços mais baixos e compras em maior volume, tem deslocado parte do consumo. Ao mesmo tempo, os supermercados tradicionais precisam lidar com custos operacionais maiores, aumento de perdas e margens cada vez mais apertadas.
Dados da Associação Brasileira de Prevenção de Perdas mostram que o índice médio de perdas no varejo alimentar subiu de 1,91% para 2,39% entre 2023 e 2024 — um aumento que impacta diretamente a rentabilidade das redes varejistas.
Diante desse cenário, empresas do setor têm buscado novas estratégias para manter a competitividade. Entre elas estão a ampliação das marcas próprias, programas de fidelidade mais robustos, uso intensivo de dados para entender o comportamento do consumidor e investimentos em canais digitais.
Outro movimento importante é a diversificação do mix de produtos. Enquanto parte do consumidor busca economizar, outra parcela continua disposta a pagar mais por itens considerados diferenciados, saudáveis ou premium — criando um mercado cada vez mais segmentado.
Esse equilíbrio delicado entre preços, hábitos e renda faz do varejo alimentar um dos setores mais sensíveis às mudanças sociais e econômicas do país.
No fim das contas, o carrinho de compras do brasileiro continua sendo um retrato fiel da economia. Quando o orçamento aperta, ele encolhe. Quando a confiança aumenta, ele volta a crescer.
Mas a principal mudança dos últimos anos talvez seja outra: hoje, disputar espaço no orçamento das famílias significa competir não apenas com outros alimentos, mas também com apostas online, medicamentos, serviços digitais e uma infinidade de novas prioridades de consumo.
Para o varejo alimentar, o desafio não é apenas vender mais — é entender um consumidor que está mudando rapidamente.