A clássica comparação entre empreender no Brasil e investir em títulos públicos voltou ao centro das discussões econômicas e empresariais em 2026. A provocação — “O que você prefere: ser empresário no Brasil e lidar com pessoas, processos e impostos com 90% de risco de quebrar em até cinco anos, ou emprestar dinheiro ao governo e ganhar 7% ao ano + inflação garantidos por até 40 anos?” — reflete um dilema real enfrentado por muitos investidores e pequenos empresários brasileiros.
De um lado, dados do Sebrae e do IBGE mostram que cerca de 80% das micro e pequenas empresas encerram suas atividades antes de completarem cinco anos, principalmente por problemas de gestão, carga tributária elevada e burocracia. O Brasil ainda ocupa as últimas posições em rankings internacionais de ambiente de negócios, como o Ease of Doing Business do Banco Mundial, em que a abertura e manutenção de empresas enfrentam barreiras estruturais.
Do outro lado, o cenário macroeconômico recente favorece investimentos em renda fixa, sobretudo em títulos públicos indexados ao IPCA — como o Tesouro IPCA+ — que oferecem rendimentos reais (inflação + juros fixos) e proteção contra perda de poder de compra no longo prazo. Com a taxa Selic estabilizada na casa dos 10,75% ao ano, investidores conseguem retornos de 6% a 7% acima da inflação, com risco praticamente nulo em comparação ao empreendedorismo.
Economistas destacam que, embora o investimento em títulos públicos ofereça segurança e previsibilidade, ele não gera inovação, emprego ou crescimento econômico direto, diferentemente da atividade empresarial, que movimenta setores, cria renda e contribui para o PIB. “O Brasil precisa de empreendedores, mas o sistema atual premia quem empresta dinheiro ao Estado e penaliza quem produz”, avalia o economista e professor da FGV, Ricardo Amorim.
Ainda assim, a escolha entre empreender e investir depende do perfil de risco e do horizonte de cada pessoa. Enquanto o empreendedor aposta em retorno potencialmente alto, mas incerto, o investidor em renda fixa busca tranquilidade financeira, abrindo mão de grandes ganhos em troca de estabilidade e liquidez garantidas.
No fim, a provocação não é apenas financeira — é também um retrato da estrutura econômica e tributária brasileira, que muitas vezes transforma o sonho de empreender em um desafio de sobrevivência.