O aumento no preço do diesel, impulsionado pela cotação do Brent acima dos US$ 105, atinge o agronegócio brasileiro como um efeito dominó. No Brasil, o diesel não é apenas um combustível; é o custo base de quase 70% de toda a logística nacional e o principal insumo operacional das fazendas. Quando o diesel sobe, o impacto no frete agrícola é imediato, alterando desde a viabilidade da safra até o preço final do alimento no supermercado.
O Peso do Diesel na Produção e no Transporte
O impacto ocorre em duas frentes distintas, mas conectadas:
1. Dentro da Porteira (Custo de Produção): O preparo do solo, o plantio e a colheita dependem de máquinas pesadas que consomem grandes volumes de combustível. Estima-se que o diesel represente entre 15% e 20% do custo variável de produção de grãos como soja e milho. Com a defasagem atual e a perspectiva de reajustes, o produtor vê sua margem de lucro ser comprimida antes mesmo do produto sair da fazenda.
2. Fora da Porteira (Frete Rodoviário): O Brasil transporta a maior parte de sua safra por caminhões. No frete agrícola, o diesel chega a representar 50% do valor total da viagem.
- A "Mão de Direção": Com a alta do combustível, os transportadores autônomos e as transportadoras repassam o custo para as tradings e produtores.
- Distâncias Continentais: Como as principais fronteiras agrícolas (Mato Grosso, Matopiba) estão distantes dos portos, o aumento por quilômetro rodado torna o produto brasileiro menos competitivo no mercado externo.
O Efeito Cascata na Cesta Básica
O frete agrícola é o principal elo de transmissão da inflação do campo para a cidade. Quando o custo do transporte da soja sobe, o custo do farelo para alimentar frangos e suínos também aumenta. O resultado é um aumento generalizado nas proteínas animais, óleos e derivados.
Analistas do setor alertam que, se a defasagem de 18% no diesel for corrigida pela Petrobras de uma só vez, o impacto no frete agrícola pode chegar a uma elevação de 8% a 10% no curto prazo. Isso ocorre porque o setor de transportes trabalha com margens muito estreitas e não tem capacidade de absorver o aumento sem repassá-lo.
Riscos para a Safra 2026
A persistência da guerra do petróleo e a instabilidade no Estreito de Ormuz criam um cenário de incerteza para o planejamento da próxima safra. O receio de falta de produto ou de preços proibitivos pode levar produtores a reduzirem o investimento em tecnologia ou área plantada, o que comprometeria a oferta futura de alimentos.