RIO DE JANEIRO — Três anos após a revelação da fraude contábil bilionária da Americanas S.A., o caso que abalou o mercado financeiro brasileiro ainda segue sem punições efetivas aos responsáveis e com efeitos prolongados sobre investidores, credores e o varejo nacional. A companhia, que em janeiro de 2023 admitiu um rombo de mais de R$ 20 bilhões, vale hoje apenas 10% do que valia antes do escândalo — reflexo da perda de confiança e do longo processo de reestruturação judicial.
Em 11 de janeiro de 2023, a então direção da varejista comunicou ao mercado a existência de “inconsistências contábeis” em suas demonstrações financeiras, estimadas inicialmente em R$ 20 bilhões e depois ampliadas para R$ 25,3 bilhões. O anúncio levou à maior queda de valor de mercado da história da B3 em um único dia, com perda superior a R$ 8 bilhões, e à abertura de investigações na CVM, Polícia Federal, Ministério Público Federal e Justiça de São Paulo.
Apesar das investigações avançarem, nenhum executivo foi formalmente condenado até o momento, e o processo judicial segue em tramitação. O caso trouxe à tona falhas graves nos mecanismos de governança corporativa e auditoria independente, além de expor vulnerabilidades nos controles internos das grandes corporações brasileiras.
Impacto financeiro e reestruturação
A Americanas ainda tenta se reerguer sob o plano de recuperação judicial homologado em 2024, que prevê renegociação de dívidas de cerca de R$ 42 bilhões com credores — incluindo grandes bancos nacionais. O plano inclui fechamento de lojas deficitárias, digitalização de operações e injeção de capital pelos acionistas de referência, o trio de bilionários Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, fundadores da 3G Capital.
Mesmo assim, a companhia continua operando com fluxo de caixa restrito e participação de mercado reduzida. Seu valor de mercado, que superava R$ 7,5 bilhões antes do escândalo, gira hoje em torno de R$ 750 milhões, segundo dados da B3 — o equivalente a 10% do valor anterior.
Investigação e punições
A CVM segue apurando a conduta de ex-executivos e auditores da PwC, empresa responsável pela auditoria das demonstrações financeiras da Americanas, sob suspeita de negligência e omissão em detectar as fraudes. O Ministério Público investiga ainda possível manipulação de resultados e omissão de informações ao mercado. Já a PF mantém inquérito sobre eventuais crimes contra o sistema financeiro e falsidade ideológica.
Segundo especialistas, a demora na responsabilização dos envolvidos gera insegurança jurídica e prejudica a credibilidade do mercado de capitais brasileiro, ao mesmo tempo em que dificulta a atração de investidores estrangeiros. “O caso Americanas mostrou a fragilidade dos mecanismos de controle corporativo no Brasil. Três anos depois, a ausência de punição é tão grave quanto a fraude em si”, afirma o economista Ricardo Teixeira, da FGV.
Efeitos para o varejo e investidores
No setor varejista, a crise da Americanas teve efeito dominó. Fornecedores de pequeno e médio porte enfrentaram calotes e cortes de contratos, e concorrentes como Magalu, Via e Casas Bahia foram afetados pela retração do crédito bancário ao varejo. O episódio também levou bancos a reverem políticas de empréstimo e práticas de governança nas empresas listadas em bolsa.
Entre os investidores, o sentimento predominante ainda é de frustração. “O caso expôs uma vulnerabilidade estrutural: falta de transparência e complacência com grandes grupos”, afirmou o analista de mercado Leonardo Siqueira, da Genial Investimentos.
Um símbolo de alerta
Três anos depois, o caso Americanas tornou-se um divisor de águas na governança corporativa brasileira. A CVM deve concluir seus processos administrativos ainda em 2026, com possibilidade de multas recordes e proibições de atuação no mercado financeiro.
Enquanto isso, a companhia tenta retomar credibilidade e lucratividade — um caminho lento, que depende de reestruturação operacional e confiança de consumidores e investidores.
“A Americanas virou um exemplo negativo de como o sistema pode falhar. A recuperação é possível, mas o dano à reputação é profundo e duradouro”, resume o professor Roberto Dumas, do Insper.