BRASÍLIA — O Banco Central (BC) identificou indícios de um esquema financeiro envolvendo 36 empresas utilizadas para a concessão de empréstimos supostamente fictícios no Banco Master, o que pode ter resultado no desvio de aproximadamente R$ 11,5 bilhões, segundo reportagem do jornal Valor Econômico.
De acordo com a apuração, os recursos foram transferidos por meio de uma rede de fundos de investimento administrados pela gestora Reag, e depois retornaram ao sistema financeiro por meio de operações estruturadas que levantaram suspeitas de fraude e lavagem de dinheiro.
Fontes com acesso à investigação afirmam que o modelo consistia em simular operações de crédito com empresas de fachada, que serviam como intermediárias para movimentar os valores entre fundos, offshores e contas bancárias de beneficiários ocultos.
“Trata-se de uma engenharia financeira complexa, desenhada para mascarar a origem e o destino dos recursos. A suspeita é de que parte do dinheiro tenha sido usada para recomprar cotas de fundos e financiar operações internas”, explicou um técnico do BC ouvido sob anonimato.
O Banco Master, alvo de liquidação extrajudicial decretada em dezembro de 2025, já vinha sendo monitorado pelo órgão regulador devido a inconsistências contábeis e indícios de manipulação de balanços. O caso agora é tratado como uma das maiores suspeitas de fraude bancária dos últimos anos.
A Reag Investimentos, responsável pela administração de parte dos fundos sob investigação, informou em nota que “atua com transparência e dentro dos padrões legais” e que está “colaborando com as autoridades para esclarecer qualquer inconsistência identificada nas operações”.
Segundo o Valor Econômico, o Banco Central compartilhou as informações com o Ministério Público Federal (MPF) e com a Polícia Federal, que devem abrir inquéritos para apurar crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Também há suspeitas de conluio entre executivos e intermediários financeiros para ocultar o real controle das empresas envolvidas.
A investigação aponta ainda que parte das empresas beneficiadas pelos empréstimos tem capital social incompatível com os valores movimentados e endereços inexistentes, características típicas de empresas de fachada criadas para operações ilícitas.
“Os padrões identificados se assemelham a esquemas de retroalimentação de liquidez — quando o próprio banco financia, de forma indireta, suas operações e melhora artificialmente seus indicadores de solvência”, disse um especialista em regulação bancária ouvido pelo jornal.
O Banco Central mantém o caso sob sigilo bancário e fiscal, mas fontes do órgão afirmam que o relatório final deve ser encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU) e ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) nas próximas semanas.
Se confirmadas as suspeitas, o caso poderá se tornar o maior escândalo financeiro desde a liquidação do Banco Santos, em 2004, envolvendo operações cruzadas e dissimulação contábil em larga escala.
A liquidação do Banco Master já é alvo de ações no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Contas da União (TCU), após questionamentos sobre a transparência do processo e eventuais conflitos de interesse na condução das investigações.