Os ataques militares dos Estados Unidos contra a Venezuela, em 3 de janeiro de 2026, provocaram forte reação internacional — especialmente de países governados por lideranças de esquerda ou com histórico de antagonismo político e estratégico com Washington. As reações mais duras vieram de Brasil, México, Colômbia, Cuba, Chile, Rússia e Irã, que classificaram a ofensiva como violação flagrante da soberania venezuelana e do direito internacional.
Brasil – Lula fala em “linha inaceitável”
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi um dos primeiros a se pronunciar. Em nota oficial e em discurso público, afirmou que “os Estados Unidos ultrapassaram uma linha inaceitável ao atacar um país soberano latino-americano”, pedindo uma reação firme da comunidade internacional. O Itamaraty classificou a ação como “violação do artigo 2º da Carta da ONU” e defendeu que conflitos regionais devem ser resolvidos por meio do diálogo.
“O que está em jogo não é a Venezuela, é o respeito ao direito internacional”, disse Lula em Brasília.
México – defesa da soberania e da paz regional
O governo da presidente Claudia Sheinbaum emitiu nota condenando categoricamente a ofensiva americana. A chancelaria mexicana declarou que “o uso unilateral da força constitui grave retrocesso nas relações hemisféricas” e convocou reunião de emergência da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos).
Colômbia – Petro alerta para risco de guerra regional
O presidente Gustavo Petro reagiu com veemência, descrevendo o ataque como “um ato de agressão que ameaça toda a América do Sul”. Petro pediu uma sessão urgente do Conselho de Segurança da ONU e determinou reforço militar preventivo na fronteira com a Venezuela, alegando risco de desestabilização regional.
Cuba – “terrorismo de Estado”
A resposta mais dura veio de Cuba, cujo presidente Miguel Díaz-Canel chamou a ação de “terrorismo de Estado contra um país irmão”. Em discurso transmitido pela TV estatal, Canel acusou os EUA de tentarem “aniquilar qualquer projeto político independente na América Latina” e exigiu que o Conselho de Segurança condenasse formalmente Washington.
Chile – Boric pede “fim da escalada”
O presidente Gabriel Boric, mesmo crítico do regime de Maduro, repudiou a ação americana, defendendo “respeito incondicional ao princípio da não intervenção”. Boric afirmou que “a democracia não se exporta por meio de mísseis” e pediu um corredor humanitário supervisionado pela ONU.
Rússia e Irã – reação geopolítica imediata
Fora da América Latina, Rússia e Irã também reagiram com veemência. O porta-voz do Kremlin declarou que “Moscou considera a operação americana um ato de agressão que viola a soberania de um Estado membro das Nações Unidas” e anunciou a convocação de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança.
O Irã chamou o ataque de “crime contra a humanidade cometido sob o pretexto da democracia”, reforçando sua aliança com Caracas.
Outras reações e o silêncio estratégico
A União Europeia adotou tom neutro, pedindo desescalada, enquanto os Estados Unidos e aliados da OTAN justificaram a ação como resposta a “ameaças regionais e violações de direitos humanos”. Países como Argentina (sob Javier Milei) e Paraguai apoiaram explicitamente Washington, alegando que Maduro “perdeu legitimidade”.
O que está por trás do repúdio
Especialistas em política externa avaliam que o repúdio mais contundente veio de países com tradição de defesa da soberania latino-americana e de nações que mantêm alianças estratégicas ou econômicas com Caracas.
Para o professor Carlos Pérez, da Universidade do Chile,
“A divisão das reações revela o novo mapa político do continente: de um lado, democracias progressistas que temem o retorno da lógica de intervenção americana; de outro, governos liberais ou conservadores que veem em Maduro um obstáculo à estabilidade regional.”
O episódio aprofunda a disputa de narrativas: os EUA justificam a ação como defesa da democracia, enquanto os países latino-americanos mais independentes denunciam a volta da política de força. A resposta ao ataque à Venezuela não apenas divide governos — ela redefine o equilíbrio de poder e de soberania nas Américas em 2026.