Agricultores franceses organizaram grandes bloqueios de estradas e ruas na capital francesa nesta quinta-feira (8) em protesto contra o acordo comercial planejado entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, que deve ser votado pelos Estados-membros da UE na sexta-feira (9). Os protestos ocorreram um dia antes da votação decisiva e chamaram atenção por causarem **congestionamentos extensos e pressão política sobre o governo de Emmanuel Macron.
Nas primeiras horas do dia, dezenas de tratores avançaram por rodovias que levam à cidade e entraram em Paris, mesmo superando postos de controle da polícia, e bloquearam vias importantes, incluindo partes da avenida Champs-Élysées e a área ao redor do Arco do Triunfo, além da estrada que liga a capital à Normandia (A13). O bloqueio gerou engavetamentos de até 150 km de extensão nas rotas de acesso antes do horário de pico.
Os manifestantes, organizados principalmente pela Coordination Rurale, um sindicato agrícola francês, argumentam que o acordo ameaça a agricultura local, pois permitiria a entrada de alimentos estrangeiros mais baratos e com padrões de produção diferentes, o que, segundo eles, pode prejudicar os produtores europeus e intensificar a concorrência desleal.
Além da oposição ao pacto comercial UE-Mercosul, os protestos também expressam queixas sobre a forma como o governo lidou com uma doença bovina (dermatite nodular contagiosa) e outras políticas agrícolas, com agricultores afirmando que se sentem “abandonados” pela administração francesa.
O contexto vinha se aquecendo nos últimos meses: em dezembro de 2025, agricultores europeus já haviam bloqueado estradas em Bruxelas em protestos semelhantes contra o pacto com o Mercosul, destacando uma mobilização ampla do setor rural dentro da União Europeia.
A França, tradicionalmente uma das vozes mais críticas ao acordo com o Mercosul, vem buscando salvaguardas para proteger seu setor agrícola, enquanto a Comissão Europeia ofereceu pacotes de incentivos financeiros (cerca de € 45 bilhões) e redução de algumas tarifas para conquistar apoios internos e destravar a assinatura do tratado.
A votação do acordo pelos Estados-Membros acontece em um momento de forte tensão política interna, com o presidente Emmanuel Macron enfrentando desafios no Parlamento e risco de voto de confiança caso sua posição seja considerada fraca diante das críticas dos agricultores e da opinião pública.
O acordo UE-Mercosul, negociado ao longo de décadas, visa criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, envolvendo a UE e os países do Mercosul — Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Embora a França e outros países tenham reservas, o tratado conta com o apoio de nações como Alemanha, Espanha e Itália, o que pode viabilizar sua aprovação mesmo sem unanimidade.
O clima de protestos na capital francesa reflete um amplo movimento de resistência rural dentro da Europa, em que agricultores têm manifestado preocupação com políticas de comércio, clima e sustentabilidade que influenciam diretamente suas atividades econômicas e modos de vida.