A recente onda de investigações da Polícia Federal (PF) reacendeu um debate antigo: a PF é igualmente eficiente em todos os tipos de casos — ou age com mais velocidade quando o alvo é político e ligado à direita? A comparação entre a agilidade em operações envolvendo Jair Bolsonaro, seus filhos e aliados, e a lentidão em apurações sobre fraudes bilionárias no INSS ou irregularidades no Banco Master, expõe o que muitos chamam de “eficiência seletiva”.
Nos últimos anos, a corporação protagonizou operações que ganharam destaque diário nos noticiários — prisões, buscas e apreensões, e vazamentos controlados de informações sobre figuras públicas. Enquanto isso, investigações de corrupção estrutural, como fraudes em benefícios previdenciários, seguem longe do radar popular, mesmo que somem prejuízos acima de R$ 10 bilhões aos cofres públicos, segundo dados do próprio Ministério da Previdência.
O cientista político Cláudio Couto, da FGV, lembra que “a percepção de seletividade não decorre apenas da ação policial, mas da dinâmica midiática e da pressão institucional. Quando um caso tem potencial político, o sistema de justiça inteiro se move com mais urgência”. Já a advogada e ex-delegada da PF Márcia Santos acrescenta que “crimes financeiros e previdenciários exigem perícias contábeis longas, rastreamento internacional e cooperação entre órgãos — processos silenciosos, que raramente produzem imagens de impacto”.
Mesmo assim, a diferença de ritmo alimenta uma sensação pública de que a PF persegue com mais vigor o que é visível e politicamente vantajoso, em detrimento de investigações que, embora complexas, afetam diretamente a economia e o cidadão comum. Essa percepção é reforçada por declarações de parlamentares e analistas que acusam o governo de usar o aparato policial como instrumento de desgaste de adversários.
Por outro lado, especialistas em transparência lembram que a politização da segurança pública não é novidade no Brasil. Desde a redemocratização, cada gestão tenta imprimir seu próprio estilo à PF — ora privilegiando o combate à corrupção política, ora reforçando o foco econômico. Segundo o jurista Miguel Reale Júnior, “a independência da PF precisa ser garantida não só por lei, mas por cultura institucional; sem isso, ela corre o risco de ser vista como braço operacional do governo de turno”.
Enquanto os holofotes permanecem voltados a figuras conhecidas, os grandes rombos estruturais — previdência, fundos públicos e bancos de médio porte — seguem sem o mesmo rigor investigativo. A ausência de atenção política e jornalística cria um ciclo perverso: casos discretos recebem menos recursos, produzem menos resultados e, consequentemente, reforçam a imagem de ineficiência.
Em um país onde a corrupção se manifesta tanto nos gabinetes quanto nos sistemas de pagamento, a verdadeira eficiência da Polícia Federal deveria ser medida pela capacidade de proteger o interesse público, e não pelo impacto político de suas operações.
O Brasil precisa de uma PF que investigue com o mesmo empenho o desvio de um benefício irregular e o abuso de poder de uma autoridade — sem ceder à tentação das manchetes.